Reflexões

Parte 1: Desafios e perspectivas para a juventude

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A preocupação com a juventude não é exclusiva da Igreja. Os jovens estão em evidência no Brasil e no mundo desde meados dos anos 90: nos meios de comunicação, nas pesquisas acadêmicas, nos movimentos sociais e partidos políticos, nas entidades religiosas, nos organismos governamentais. Isso se deve tanto ao reconhecimento dos graves problemas vividos pela juventude atualmente, quanto à ação organizada da própria juventude, que coloca na pauta social seus interesses e potencialidades.

Para perceber as possibilidades e limites da participação da juventude na Igreja é preciso inserir esta reflexão no quadro mais amplo da situação da juventude em nosso país, e da vivência religiosa de jovens na atualidade.

1- Elementos da situação da juventude no Brasil atual

Aproximadamente um quarto da população brasileira atual é jovem, um contingente de cerca de 52 milhões de pessoas de 15 a 29 anos, com demandas específicas e potencialidades. As relações que a sociedade estabelece com os jovens são marcadas por uma ambiguidade: a juventude se torna um valor na sociedade de mercado: ideal desejado de vitalidade, beleza, alegria, explorado pela propaganda e todos desejam permanecer jovens; ao mesmo tempo, a juventude condensa medos sociais, na medida em que é relacionada a problemas existentes na sociedade que lhes dizem respeito mais diretamente, como o envolvimento com a violência, drogadição, abandono da escola, desemprego/desocupação, situações decorrentes do início da vida sexual – contágio de doenças sexualmente transmissíveis ou gravidez não planejada -, e outros comportamentos que podem colocar em risco sua integridade física e sua saúde. Jovens também são as vítimas mais frequentes de exploração sexual e de homofobia. Por outro lado, existem muitas dificuldades de inserção social para grandes parcelas da juventude, que têm limitadas suas possibilidades de acesso à educação de qualidade e a postos de trabalho dignos, à formação profissional, à fruição cultural, ao lazer, à participação.

Existe uma tendência a generalizar quando se aborda a situação da juventude em nosso país, mas é preciso perceber a complexidade de modos de vida desses milhões de jovens, muito diferenciados quando considerados segundo variáveis de sexo, condição socioeconômica, local de moradia, cor/etnia, situação de trabalho, escolaridade, orientação sexual, vida familiar, pertencimentos religiosos, políticos etc.

Diversas pesquisas sobre a juventude brasileira realizadas na última década contribuem na compreensão deste universo. A população juvenil está concentrada nas áreas urbanas (84,8%). A maior parte vive em cidades pequenas e médias, e um terço em áreas metropolitanas. A migração de jovens para os centros urbanos tem por objetivo ampliar as oportunidades de educação, trabalho e diversão. Mesmo que a imensa maioria da juventude brasileira resida no meio urbano, cerca de 5,5 milhões de jovens permanecem no campo (15,2%), e é necessário garantir seus direitos fundamentais de educação, formação profissional, mobilidade e lazer.

A educação e o trabalho são elementos fundamentais no processo de construção de autonomia e emancipação da juventude. Nas duas últimas décadas ocorreu um aumento na escolarização juvenil: em 1992, 23,7% dos jovens de 15 a 29 anos frequentavam a escola, percentual que se eleva para 35,4% em 2007[1]. No entanto, ainda havia cerca de 1,5 milhão de jovens analfabetos em 2007, concentrados principalmente no Nordeste; 17% dos jovens de 15 a 17 anos estavam fora da escola (idade adequada para cursar o ensino médio); 24,5% dos jovens até 29 anos haviam concluído o ensino médio, apenas 13% dos jovens de 18 a 24 anos frequentavam o ensino superior, e poucas oportunidades para o ensino profissional. Mesmo com a melhoria dos índices de acesso, permanecem desafios referentes à qualidade da educação oferecida e às condições necessárias para o desenvolvimento do processo educativo: transporte, alimentação, material didático, qualificação e remuneração dos profissionais.

Pesquisas recentes mostraram os problemas que mais preocupam a juventude: emprego e segurança/violência. De fato, outra marca geracional da juventude contemporânea é conviver com a violência. Os índices de violência que atinge jovens em nosso país são semelhantes ou superiores aos encontrados em países que se encontram em guerra[2]. Entre 2003 e 2005 houve cerca de 60 mil óbitos de homens jovens por ano, a grande maioria (78%) resultante de homicídios e acidentes de transporte. Trata-se de uma violência que atinge de maneira particular jovens do sexo masculino e negros.

A problemática da violência urbana está estreitamente relacionada à rede de produção, circulação, distribuição e consumo de drogas ilícitas, apoiada no poder bélico, que envolve altos investimentos e lucros que ultrapassam as fronteiras dos territórios segregados das cidades onde é feita a venda em pequenas quantidades.

Uma terceira marca geracional da juventude brasileira na atualidade é a comunicação virtual possibilitada pelo desenvolvimento da microinformática e da internet. Esses recursos são acionados dando origem a novas formas de sociabilidade juvenil, abrem perspectivas para a circulação de informações, para o estabelecimento de identidades como, por exemplo, as redes sociais e temáticas.

Há também o fenômeno da formação de grupos juvenis em torno de identidades específicas, reunindo jovens que compartilham pensamentos, estilos de vestir, gostos, comportamentos, formas de estar no mundo, que configuram diversas culturas juvenis. Alguns denominam estes grupos de “tribos urbanas”.

A participação social é outro tema polêmico quando se reflete sobre a juventude atual. Uma concepção muito difundida é que jovens de hoje são individualistas e estão afastados de ideais e de práticas de solidariedade, de compromisso e de mobilização social, em comparação a gerações de jovens de décadas passadas, ou em comparação aos adultos da atualidade.

Muitos estudiosos têm questionado este tipo de avaliação, porque não há séries históricas que permitam a comparação entre juventudes de diferentes épocas, nem estudos comparativos entre o nível de mobilização social de jovens e adultos numa mesma época. Ao contrário, apontam uma infinidade de mobilizações juvenis que ultrapassam os campos tradicionais da militância estudantil e político-partidária, que são constituídas em torno de identidades coletivas que buscam efetivar direitos: são jovens negros e negras, jovens mulheres, jovens da agricultura familiar, jovens com deficiência, jovens das comunidades tradicionais, jovens do movimento LGBT, jovens do movimento Hip Hop, jovens de redes constituídas em torno da ecologia ou da comunicação, do esporte e de manifestações artísticas, para citar alguns exemplos de uma juventude que alimenta anseios de transformação pessoal e social, e que se envolve na construção das chamadas políticas públicas de juventude.

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