Reflexões

Um Tempo: Tributo aos Missionários Capuchinhos

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Quando os viajantes percorrem a BR 259, deparam às margens da rodovia, o modesto distrito de Penha do Norte, em Conselheiro Pena-MG, e rapidamente percebem a Igreja de Nossa Senhora da Penha. Esta modesta capela com um frontispício de torre única fica na mente de quem a vê, devido ao arquétipo de templo católico típico das construções de capelas mineiras. Tal templo desperta certa nostalgia, sentimento este que flui do passado que a comunidade de fé possui. Aliás, o passado da Igreja leva-nos ao encontro com os heróicos Frades Capuchinhos que, na segunda metade do século XIX e primeira metade do séc. XX desempenharam um ato heróico na evangelização do médio Rio Doce.

A diocese de Governador Valadares criada nos últimos anos da década de 50 marcada pela presença de religiosos da Congregação do Espírito Santo, A Ordem das Escolas Pias, ou a presença da Ordem do Carmo, é mais recente a memória do nosso povo a vida e prática pastoral dos seus padres. Todavia, nossos fieis desconhecem a presença dos capuchinhos que tiveram uma considerável atuação em pontos estratégicos do médio Rio Doce, no final do século XIX e início do séc. XX, hoje atuantes de forma discreta, contemplativa e acolhedora no Santuário de Santa Rita de Cássia, em Governador Valadares.

Os frades foram um dos pioneiros na evangelização da região. As primeiras sementes do evangelho lançadas por estes homens de fé que; deixando mundo europeu, embrenharam nas matas tropicais do sertão do leste mineiro, com o forte desejo de anunciar Jesus Cristo conquistando novos fieis para a Igreja católica. Vindos da província do Rio de Janeiro, aceitaram a proposta por parte do Império na segunda metade do século XIX de catequizarem os indígenas presentes no território que hoje abrange as dioceses: Governador Valadares, Teófilo Otoni e outras.

As primeiras missões focadas na catequese se organizavam em aldeamentos, onde muitas vezes se tornaram duradouros transformando em cidades ou breves como o “aldeamento da missão de Mutum com duração de quatro anos” (PRIMEIRO, 1997, p. 61), cuja a condução esteve sobre a responsabilidade do “frei Benedito Bobbio até 31 de dezembro de 1873, quando deixou sua direção, continuando apenas como capelão, ao mesmo tempo que assistia também a freguesia de Cuieté, ocasião que construiu uma estrada de Cuieté a Natividade, atual Aimorés” (SANTIAGO, 1997, p. 61).

Além de Frei Bobbio, Frei Ludovico de Mazzarino que fundou o aldeamento de Poaia e de Itueto acompanhado do Frei Serafim de Fossombrone. Este itinerário de missão formava uma rede de evangelização em meio aos primeiros agrupamentos de homens brancos, “em 1875, o diretor do Aldeamento do Itueto, Frei Miguel, afirmava que ele e seu companheiro, Frei Joaquim de Palermo, prestavam socorro espiritual do Cuieté e aos demais povoados circunvizinhos” (SOUSA, 2018, pg 174).

Porém, a mais importante missão é do Itambacuri, iniciada provavelmente em 1873, pelos Frades Serafim de Gorízia e Ângelo de Sassoferrato. Tal missão influenciou a evangelização do vale do Rio Itambacuri, atual região da diocese de Teófilo Otoni. Todavia, enquanto “o padroado preocupava em civilizar os indígenas, os frades não mediam esforços de evangelizar os indígenas, convertendo a fé cristã, mais considerando os valores culturais que os mesmos detinham.” (PEREIRA, 1998, p. 72).

Com o passar dos anos, especialmente na primeira metade do século XX, com o aumento da população às margens do Rio Doce, os capuchinhos continuaram sua missão e zelo. Destaca a presença do Reverendíssimo Frei Angélico de Campora, o primeiro administrador da paróquia de Santo Antônio (1915ss), em Figueira do Rio Doce, atual catedral de GOVAL e do recém curato de Nossa Senhora da Natividade, fundado em 1916, em Natividade do Manhuaçu (hoje, Aimorés-MG). Nessa paróquia destaca-se a presença Frei José de Alàntri, 1915ss, Frei Francisco de Módica, Frei Arcângelo. Já Aimorés, além de Frei Angelo, o sucedeu Frei Luiz de Palazzolo, onde 1918, passos o curato para os padres seculares da diocese de Caratinga.

Finalmente, a freguesia de Nossa Senhora da Penha, esta foi assumida em 1939 – tendo em vista que, em 1911 na criação da freguesia de Nossa Senhora dos Anjos, em Itambacuri, o lugarejo era mencionado como capela curada da nova freguesia (PALAZZOLO, 1973, p. 292). Em agosto daquele ano [1939], Frei Daniel de Mineo (1939-1942) foi nomeado vigário e Frei Federico de Mazzarino, codjuntor (1939-1947)” (PEREIRA, 1998, pg. 361). As primeiras medidas do Reverendo vigário desta freguesia foi adquirir uma casa para a moradia e organizar o apostolado da oração, iniciando com quarenta senhoras. Entretanto, “a casa foi fechada em 1953, após o falecimento repentino de Frei Miguelângelo de Gera (1942-1951)”. (PEREIRA, 1998, p. 359). Além destes frades estiveram à frente de Penha do Norte: Frei Querubim Valenti, coadjutor, 1947, frei Apolinário de Sortino (?), 1948, Frei Jorge de Módica, 1949-1950, Frei Zaccarias (de Módica), coadjuntor. Todos estes nomes merecem ser eternizados devido a coragem e disponibilidade em lançarem as sementes em nossa região, são exemplos de disponibilidade e despojamento. Em síntese, os primeiros “apóstolos” da nossa terra.

Por Theófilo Gonçalves de Paula –  Bacharel em Filosofia, Pós graduando em História da Arte Sacra.

Referências:
MENDES, Edson. Igreja católica de Penha do Norte. 2007. Disponível em<< http://br.geoview.info/igraja_catolica_de_penha_do_norte_distrito_de_conselheiro_pena,5955268p>> Acesso em 30 de Set. de 2018. [Figura]
PALAZZOLO, Frei Jacinto de. Nas selvas dos vales do Mucuri e do Rio Doce. 3ª Ed. São Paulo: Campanha Editorial Nacional, 1972.
PEREIRA, Serafim J. Missionários Capuchinhos: nas antigas Catequeses Indígenas e nas sedes do Rio de Janeiro, Espírito Santo e Leste de Minas 1840-1997. Cúria provincial dos capuchinhos do Rio de Janeiro, 1998.
PRIMEIRO, P. Fr. Fidelis M. de. Capuchinhos em Terras de Santa Cruz: nos séculos XVII, XVIII e XIX. São Paulo: livraria Martins, 1940.
SANTIAGO, Thiago Frei. Os capuchinhos em Minas Gerais: subsídios para a história. Belo Horizonte: editora Santa Edwiges, 1997.
SOUSA, José Araújo de. A conquista do Cuité. Vitória, ES: cousa, 2018.
Figura 1: MENDES, Igreja Católica de Penha do Norte, 2007.
Fonte: Disponível em: <<http://br.geoview.info/igraja_catolica_de_penha_do_norte_distrito_de_conselheiro_pena,5955268p>> Acesso em 30 de set. 2018.

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