No que se refere à condição humana, percebe-se maior cuidado com animais de estimação do que com as pessoas da própria família. O que se dirá do desinteresse pelas massas que sobram nas cidades? A redescoberta e a valorização da individualidade possibilitaram também o individualismo. O homem se acha autossuficiente e, sem deixar de crer, rompe com a tradição religiosa e descuida do senso de pertença à religião, à Igreja e à família. Passa a crer em um Deus segundo sua imagem, medida e necessidade.
Esse contexto altera a nossa percepção da realidade e incide diretamente sobre a transmissão da fé às novas gerações. Vivemos, hoje, numa sociedade laica, plural e secularizada que não é, de todo, antirreligiosa, mas situa todas as suas convicções no terreno da livre-adesão. Cresce também o laicismo, que relega toda dimensão religiosa ao âmbito privado. Uma sociedade laica e secularizada não é necessariamente ateia.
A missão eclesial no mundo contemporâneo exige fortalecer seu testemunho e missão em um mundo devastado pela violência e pela indiferença, consciente de que sua credibilidade está enraizada no seguimento fiel a Jesus Cristo e na coerência de sua ação evangelizadora. A Igreja defende e promove a vida, desde a concepção até seu fim natural (GE 101). Assim, são sujeitos que, cuidados pela Igreja, comunicam a integralidade da vida oferecida por Cristo: as crianças que estão ainda no ventre de suas mães, as crianças nascidas que são abandonadas ou aprisionadas a condições indignas de vida e às quais é negado um futuro; os que sofrem com a miséria, a fome, a violência e as drogas nos grandes centros urbanos; os que são marginalizados por conta de suas diferenças; os povos originários que, a todo o tempo, têm seu direito de existência ameaçado; os doentes; os que perderam a esperança na vida e os que estão no fim da vida terrena. Toda essa situação é fruto de um sistema “conhecido como neoliberalismo, que, apoiado numa concepção economicista do homem, considera o lucro e as leis de mercado parâmetros absolutos em detrimento da dignidade e do respeito da pessoa e do povo” (EA 56).
Não é possível fechar os olhos e virar as costas para os riscos que essa nova situação representa para a vivência da fé e da ética cristãs. Ao cristão torna-se urgente saber discernir “os acontecimentos, nas exigências e nas aspirações de nossos tempos, quais sejam os sinais verdadeiros da presença ou dos desígnios de Deus” (GS 11).
(10ª parte da sequência de artigos sobre a “Ação Evangelizadora da Igreja” | Fonte: Instrumentum Laboris 2 das DGAE 2025).